Sobre a prática da escrita e os eternos recomeços
E a importância de recorrer aos artistas para buscar gatilhos criativos
Por Déa Woodard
“A prática da escrita nos torna escritores” é uma frase da querida Julia Cameron que nos lembra que o hábito e a constância é o que molda a nossa identidade. Na verdade, não só como escritores. Seja leitor ou atleta, seja uma atividade remunerada ou não, é a prática que nos torna aquilo que queremos ser.
Para mim, 2023 começou repleto de desafios pessoais - emocional, física e psicologicamente. Entre perdas e visitas à emergência hospitalar, eu passei quase três semanas sem escrever praticamente nada. E passar tanto tempo sem praticar o que mais amo fazer, me tira o foco, a conexão e a presença.
Sempre que eu me pego em situações como essa, eu recorro à arte e aos artistas.
Praticando Presença
Marina Abramovic é uma artista performática nascida na Iugoslávia, que iniciou sua carreira na década de 1970 e continua em atividade até hoje. Eu conheci seu trabalho em 2010, quando vi pela primeira vez um vídeo da sua exposição no MoMa, Museu de Arte Moderna de Nova York.
Durante os três meses da exposição “A Artista está presente”, Marina sentou silenciosamente em uma mesa de madeira com uma cadeira vazia à sua frente, para que qualquer visitante do museu que quisesse se juntar a ela em um olhar silencioso e mútuo.
Para Marina, a exposição mostrou a nossa necessidade de contato e como estamos alienados uns dos outros. Quando sentamos frente a frente, e olhamos nos olhos, “não há nenhum lugar para ir a não ser para dentro de si mesmo”.
A minha atividade prática para me reconectar foi me sentar na frente do espelho, olhar nos meus olhos, em silêncio, por alguns minutos, e depois escrever sobre a sensação de conexão, conforto ou desconforto. Em suma: tudo o que veio com esse encontro comigo mesma.
Se você puder, experimenta também. Senta com um estranho, conhecido ou consigo mesma. É sobre estar presente, respirando e mantendo contato visual.
Enfrentando os medos
Em sua palestra no TED em 2015, Marina nos ensina que todos temos medos. Mas que podemos utilizar a nossa arte e a energia de troca com outras pessoas (e nós mesmos) pra explorar os nossos limites e, dessa forma, nos libertar desses medos. E como todos nós somos espelhos, se ela pôde fazer, eu e você também podemos.
Recomeçando de onde estamos, com o que temos
Mesmo depois de me reconectar e liberar meus medos, muitas vezes eu ainda me sinto bloqueada em iniciar um texto. Novamente eu me lembro de uma frase da Julia Cameron que diz: “comece de onde você está”.
Ao meu redor tem uma pequena estante com meia dúzia de livros físicos. Olho lentamente para todos eles, e escolho um em português. Abro num capítulo qualquer e leio a primeira linha em voz alta: “Em Washington, janeiro era um mês de um frio do cão, com ventos vindos do Potomac que faziam os dentes tiritar e faziam as pessoas correr em busca de abrigo”. (A Garota do Lago, Charlie Donlea, página 227)
A primeira linha de um livro ou capítulo, é uma oportunidade para os escritores criarem um mundo que desejam que os leitores adentrem. Pode ser cheio de amor, reflexão, intrigas, suspenses ou retrospectivas, é com a primeira linha que saímos do nada a um mundo novo, real ou fictício.
O que eu mais amo sobre as primeiras linhas é que são uma grande forma de inspiração para começar a escrever meus próprios textos. Às vezes eu só preciso de um empurrãozinho, um mote.
Em Orlando, janeiro está sendo um mês de um frio do cão, muito anormal. Com temperaturas chegando a -2 graus Celsius, a gente se anima em usar o aquecedor central pela primeira vez em 2 anos. É interessante sentar no quintal para tomar banho de sol e ainda precisar de um casaco. Preciso desse sol matinal. As noites têm sido longas, os dias mais curtos, solitários, mas cheios de observações, reflexões e renovações. Sentir o sol no rosto me ilumina e aquece meu coração para fazer o que preciso. Desapegar. Diminuir o ritmo. Tem sido dias desafiadores. O aprendizado é o prêmio para todo mundo que se permite dançar junto com as estações. Junto as forças e movimento o corpo numa dança simples. Estar presente e consciente me oferece esperanças. Um dia após o outro. E o outro. E a certeza que sempre, depois do inverno, vem a primavera.
No Brasil é verão, tá fazendo um calorão daqueles, tem muita gente curtindo uma praia delicinha. Estamos vivendo estações diferentes mas, às vezes, internamente, vivemos uma estação específica, muito íntima.
Seja lá o que esteja acontecendo na sua vida no momento, eu faço o convite para você que eu fiz para mim mesma: acolha, pratique a presença e recorra aos artistas. Que tal ler um trecho de um livro, um poema em voz alta e perceber como se sente? Que associações você fez com os versos que leu?
Se preferir escutar o áudio de uma poesia, você pode escutar/assistir nos links abaixo:
Convite | Experimento da vida | Saudade de um ausente
LINKS DA SEMANA:
Você sabia que o Better Idea tem uma playlist no Spotify bem cremosinha pra você se inspirar a criar mais e melhor? Detalhe: toda semana a gente coloca música nova lá!
Da importância do silêncio: um exercício criativo.
Na dúvida, escreva. Escreva, escreva e escreva. :)
Um afogamento: um paralelo muito bem construído entre a realidade e a ficção.
Se você acabou de chegar aqui, seja muito bem vindo(a) e inscreva-se para receber as próximas edições!
Se gostou do nosso conteúdo, considere compartilhar com um amigo!
A gente se vê na próxima semana!
Beijos, Beta e Déa do Better Idea.




